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05/11/2009 17:41:02
Entrevista: Benito Di Paula

Depois de quase 15 anos de ausência fonográfica, motivada por razões que ainda não estão muito claras, Benito Di Paula fechou contrato com a gravadora EMI e gravou, no Rio de Janeiro, seu primeiro DVD. Dias antes, segundo o músico, um jornalista carioca escreveu que Benito estava em decadência artística e não conseguiria levar ninguém para o show de gravação. No entanto, cerca de três mil pessoas compareceram ao Teatro Vivo Rio.

Para Benito, cuja carreira teve início em 1971, cantar para o teatro lotado foi uma vitória pessoal. Enfrentando altos e baixos desde a década de 90, o cantor alega ter sido prejudicado por jornalistas e gravadoras, mas não cita nomes e mostra-se irritado quando fala do tempo em que ficou na “geladeira”. Nesta entrevista exclusiva, Benito Di Paula faz uma revelação: odeia o termo “sambão joia” atribuído ao seu estilo.

Nascido em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941, Uday Veloso virou Benito Di Paula por sugestão do dono de um hotel que o contratou como crooner. O nome artístico abriria as portas para o músico em São Paulo, estado que o acolheu e revelou nacionalmente. Dono de um estilo original e até extravagante, Benito foi um dos primeiros a levar o samba com pegada romântica para o piano.

O auge da fama veio em 1975, quando Benito é convidado a apresentar o programa Brasil Som 75, na extinta TV Tupi. Com uma audiência espetacular, o programa alavancou as vendas dos discos do cantor. Na época, Benito Di Paula era o artista mais querido e popular do País, atrás apenas de Roberto Carlos – com quem rivalizava nas rádios. Dentre seus maiores sucessos, Retalhos de Cetim e Charlie Brown são lembrados até hoje.

O afastamento da mídia e das gravadoras veio com o boom do pagode e da música sertaneja, embora o modismo não seja apontado por ele como o culpado por seu isolamento. Benito continuou compondo e fazendo shows, mas sem o mesmo espaço e prestígio. Com o cachê bem abaixo do mercado, chegou a se apresentar em churrascarias de beira de estrada. Endividado, enfrentou problemas familiares e uma grave depressão. Hoje, recuperado, só pensa em resgatar a autoestima e dar continuidade à carreira.

BRUNO RIBEIRO - Depois de passar um tempo longe da mídia, você levou cerca de 3 mil pessoas para a gravação do DVD. Foi uma resposta aos que diziam que Benito Di Paula estava em decadência e não tinha mais público?
BENITO DI PAULA - De certa forma. Disseram muita coisa sobre mim, que eu estava acabado, que eu não conseguiria lotar nem o boteco da esquina... Quem diz isso não conhece a realidade. Sei que incomodo muita gente, porque falo na cara. Mas nunca menti, nunca difamei, nunca persegui. Acabei de voltar de Garanhuns, onde cantei para 20 mil pessoas. Esse é o público de um artista decadente? Estive afastado das gravadoras e dos programas de TV, mas nunca do público. O povo brasileiro gosta de mim.

Você guarda mágoas de alguém? Acha que foi prejudicado pelas críticas?
É claro que fui prejudicado. Esses canalhas que ganham para falar mal dos outros devem ser uns cornos. Não valem nada. Muita gente tentou puxar o meu tapete, mas o meu tapete é o chão. Mas o chão pertence a Deus, irmãozinho. É ruim me derrubar, hein? Agora, mágoa eu não guardo. Não guardo nem o nome dessas pessoas que quiseram me f...

Você encontra uma explicação para o fato de as gravadoras e a TV terem colocado a carreira de Benito Di Paula na geladeira?
Não sei, cara. Não sei como me esqueceram. Simplesmente deixei de ser chamado para fazer televisão, as gravadoras não me queriam mais, os convites para shows diminuíram e tive que baixar o cachê. Saíam muitas mentiras na imprensa.

Que tipo de mentiras?
Ah, coisas da minha vida pessoal. Que eu era drogado, que eu era veado, que eu era sei lá o quê. Ficavam me jogando contra outros artistas, inventando fofocas. Ou então diziam que eu era brega, que a minha música era música de corno. Isso tudo foi uma covardia e ferrou a minha vida.

De que maneira?
Eles impediram um homem de trabalhar. Um homem sem trabalho não vale nada. Por causa deles briguei com a minha família, perdi dinheiro, entrei numa depressão filha da p... Tive até que fazer tratamento psiquiátrico. Não queira saber a barra que eu segurei.

Você pensou em abandonar a carreira?
Não, isso nunca. Porque Deus me fez artista e não posso ir contra os seus desígnios. Queriam me mandar pra fora do País, diziam que seria melhor pra mim. Mas não quis, não fui. Sou patriota, sou brasileiro. Vou ficar aqui, eu dizia. Não saio, vou ficar aqui e enfrentar essa situação.

Seu nome de batismo é Uday Veloso. De onde veio o pseudônimo Benito Di Paula?
Isso foi na época em que eu ainda morava em Nova Friburgo e cantava na noite. Quem me deu o nome de Benito Di Paula foi o Alfredo Mota, que era dono de um hotel onde fui procurar emprego. Ele quis me contratar como cantor fixo, mas achava que Uday Veloso não era um nome muito simpático. Não era um nome de cantor de hotel (risos). Sugeriu Benito Di Paula, que ele achava chique. Deu certo.

No início, seu repertório passava por todos os estilos que geralmente um crooner canta na noite. Quando foi que você resolveu trilhar o caminho do samba?
Na verdade, sempre segui o caminho do samba. Nasci numa casa onde só se ouvia samba e música nordestina. Meu pai passava o dia ouvindo Cartola, Elizeth Cardoso, Luiz Gonzaga... Além disso, morei no Morro da Formiga e convivi com a malandragem. Cresci ouvindo o som do tamborim, não sou um aventureiro.

E por que saiu do Rio de Janeiro para tentar a sorte em São Paulo?
Tentei rádio, gravadora, mas não consegui nada no Rio. A concorrência era grande demais. Aí decidi ir pra São Paulo. Nessa trajetória, morei muito tempo em Santos, onde fiz o meu nome cantando em boates. Só depois fui pra Capital e gravei o meu primeiro disco pela extinta Copacabana, em 71. Sou muito grato ao povo paulista. Abaixo de Deus, vem São Paulo.

Você é muito religioso?
Sou católico, apostólico, romano e brasileiro (risos). Em casa sempre teve rezas, ladainhas... Mamãe era muito religiosa e passou isso para os filhos. Sou do tipo que não perde a missa de domingo.

Você é tido como o inventor de um estilo de samba que ficou conhecido como sambão joia. De onde veio esse nome?
O canalha que disse isso deve ser um corno (exaltado). Porque o canalha, ao invés de cuidar da vida dele, cuida da vida dos outros. O sambão joia não existe, nunca existiu. O que é sambão joia? Você sabe o que é isso? Não é porra nenhuma, porque eu nunca disse que fazia essa merda aí. O que faço é samba, somente samba.

É que todo mundo se refere ao seu samba dessa forma.
Tá errado. É um erro que foi sendo repetido com o passar dos anos e virou uma marca que eu nunca quis. Quero deixar claro que não inventei o sambão joia e não visto essa camisa. Aliás, não quero mais falar sobre isso (taxativo).

E aquela história de que Paulinho da Viola teria feito o samba Argumento (“Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim”) para criticar o seu estilo? É verdade que você compôs Não Me Importa Nada em resposta a ele?
Paulinho da Viola já disse mil vezes que nem sabia dessa polêmica. Eu duvido que ele faria uma coisa dessas. Porque Paulinho é um gentleman, ao contrário dessa corja que fica inventando boatos para ferrar a vida dos outros. Da mesma forma que o Paulinho não faria isso comigo, não fiz resposta nenhuma pra ele.

No auge da carreira você apresentava um programa de música na TV Tupi e chegou a dividir com Roberto Carlos a venda de discos no Brasil. Você chegou a ficar rico?
O artista no Brasil não fica rico, mas pode ganhar dinheiro. Dinheiro, eu ganhei. Mas, como sou arrimo de família, tive que ajudar muita gente. Somos treze irmãos, todos pobres. No auge, consegui dar uma casa pra minha mãe. Tudo Está No Seu Lugar é um samba que fala justamente do dia em que dei uma casa pra ela. Mas tive que trabalhar desde cedo e não tive tempo nem de estudar. O dinheiro que ganhei foi pouco perto do que passei na vida.

A partir de sua experiência à frente do programa, você diria que a televisão atualmente perdeu qualidade ou foi a música brasileira que piorou?
A música popular brasileira é soberana. É a melhor do mundo. Mas a TV não quer saber de música. A TV está nas mãos dos ignorantes. Esses dias, por conta do DVD, me convidaram para participar de um programa. Beleza, maravilha, vamos nessa. Mas aí disseram que não colocariam piano no estúdio. Eles não tinham como colocar um piano para mim. Todo mundo sabe que eu canto com piano. Se fosse o Elton John, dariam um jeito de arrumar um piano pra ele. Mas, como é o Benito, dane-se. Essa gente odeia o Brasil.

O que você gosta de assistir na TV quando está em casa?
Não vejo quase nada. A televisão brasileira só se interessa por bundas e por cientistas. Aliás, é um saco a quantidade de cientistas dando lição de moral no domingo à noite. Não é um porre aqueles especialistas falando que o cigarro faz mal? Isso todo mundo sabe.

O que você acha da lei antifumo?
A gente precisa é de escola, de trabalho, de cultura. Não precisa que o governo proíba as pessoas de fumarem. Isso é falta do que fazer. Pode virar uma ditadura.

Charlie Brown é o seu maior sucesso e se tornou um clássico da MPB. Parece que esta composição tem uma história curiosa, não é?
Essa música foi feita no início dos anos 70, quando eu ainda morava em Santos, numa pensão de italianos. Eles recebiam umas revistas estrangeiras daquele desenhista que morreu, aquele cara que criou o Snoopy (o cartunista Charles Schulz). Meu personagem preferido era o Charlie Brown. Às vezes, não tinha o que fazer, pegava aquelas revistinhas e ia ler no banheiro. Um dia, veio a ideia de fazer uma letra para o Charlie Brown, como se ele viesse me visitar e eu apresentasse o Brasil pra ele. Aí fiz (canta): “Se você quiser/ Vou lhe mostrar/ Bahia de Caetano/ Nossa gente boa”. E por aí vai.

Nesta música você cita Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Vinícius de Moraes e Jorge Ben. Além deles, que compositores fizeram a sua cabeça?
Chico Buarque é o bambambã. Depois dele, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim, Ataulfo Alves e Zeca Pagodinho. Minhas referências são as melhores possíveis (risos).

enviada por

08/01/2010 13:49:00      enviada por: ROBERTO CARLOS DE SOUZA
GOSTARIA DE TER AS MUSICA DO BENITO DI PAULA TODAS

11/12/2009 11:24:00      enviada por: Clayton
Me lembro quando era criança, e o meu pai me obrigava a ouvir pelo menos duas musicas de samba antes de descer pra brinca no predio com os amigos que muita das vezes ficavam bravos porque eu demorava e ficavam me esperando. Mas hj eu só tenho a agradecer aomeu pai por esses minutos que eu deixava de brincar, foi como uma liçao de casa que devia ser feita.rsrs. abraços

05/12/2009 00:33:00      enviada por: rosali roncatto azevedo
(rosaliazevedo@gmail.com) Sou uma fiel fã de benito di paula, eu fui sempre envolvida sentimentalmente com as musicas dele,ele é e sempre será o meu ídolo,as suas musicas são as minhas preferidas.Gostaria de obter o e-mail de benito di paula,se alguém puder me fornecer agradeceria muito obrigada

05/12/2009 00:22:00      enviada por: rosalia roncatto azevedo
(rosaliazevedo@gmail.com) fiquei muito feliz em encontrar esta reportagem hoje,vou dormir contente,demorou muito para o benito retornar,agora estamos recordando com o seu dvd,parabens benito e que deus o conserve e o proteja

27/11/2009 16:50:00      enviada por: claudia
Boa reportagem

06/11/2009 10:24:00      enviada por: Americo Camargo
(americocamargo@gmail.com) Adorei a reportagem Bruno! Para aqueles que tiveram a oportunidade de ver Benito em sua fase aurea nos anos 70, ele está sendo até modesto em sua entrevista. O cara é genial e naquela época tinha 5, 6 musicas nas paradas de sucesso!Finalmente temos um DVD do Benito para recordar seus grandes sucessos e principalmente apresentá-lo aos que não o conhecem e sua boa musica!

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