O fenômeno classificado como a interiorização do crime do Estado de São Paulo — consolidado ao longo da década — é considerado pelo setor de análise da Secretaria de Segurança Pública (SSP) como algo relativo e não absoluto. Isso quer dizer que a violência registrada nas cidades fora da área da Capital e da Grande São Paulo tem apresentado elevação, mesmo que em números absolutos ela esteja caindo.
A avaliação é do sociólogo, criminólogo e cientista político Túlio Kahn, um dos maiores especialistas em Segurança Pública do País, que desde 2005 comanda o setor de análise e coordenação da SSP.
“O que quero dizer é que a queda dos homicídios, por exemplo, ocorreu em praticamente todas as áreas do Estado. Só que ela ocorreu proporcionalmente de forma mais intensa na Capital e na Grande São Paulo, e de forma menos intensa no Interior. Então, se você for comparar a participação dos homicídios por regiões, como era nos anos 90 e como é agora, você vai ver que a participação do Interior aumentou. Embora o número absoluto tenha caído”, explica Kahn. “Então, nem sempre que estamos falando em interiorização, estamos falando em aumento de crimes pelo Interior.”
Domingo (14), no primeiro dia de uma série de três reportagens que o Correio publica sobre o avanço da violência no Interior do Estado, dados sobre os crimes contra patrimônio nas 645 cidades paulistas mostraram que enquanto essas ocorrências registraram crescimento de 9,7% na Capital e 6,7% na Grande São Paulo, nas demais áreas do Interior o aumento foi de 30%. Um incremento puxado pelas regiões de São José dos Campos (elevação de 29%), Ribeirão Preto (26%) e Bauru (18%).
O levantamento mostrou ainda que entre as 20 cidades do Estado com maior taxa de roubo estão apenas seis da Grande São Paulo. Entre as mais problemáticas, há importantes centros regionais do Interior como Campinas, Piracicaba e Ribeirão Preto.
“O crime contra o patrimônio, ao contrário do crime contra a vida, é preciso equacionar com riqueza. São dinâmicas completamente diferentes. O crime contra a pessoa a gente pode equacionar à pobreza e à periferia dos grande centros urbanos”, explica Kahn.
A SSP considera que o crime contra o patrimônio é hoje o maior foco de problemas, tanto no Interior como na Capital. “O crime contra o patrimônio continua com taxas altas. Tivemos um efeito muito grande da crise a partir de 2008, principalmente no segundo semestre”, diz o cordenador de análise e planejamento da SSP. Segundo ele, 2009 foi um ano em que esses tipos de ocorrências atingiram o pico em muitas cidades.
Prioridade
Por causa disso, as polícias Civil e Militar têm priorizado o combate aos crimes contra o patrimônio (roubos, furtos, estelionato, receptação e outros). Para isso, tem aumentado as ações ostensivas em áreas consideradas de maior incidência desses tipos de crimes, ampliado o sistema de comunicação para os policiais e investido na análise dos dados estatísticos.
Dentro dessa rota migratória do crime para o Interior, um dado ainda não comprovado é a relação que existe entre o aumento dos casos de violência em cidades com concentração de unidades prisionais. “Já fizemos análise sobre essa questão da presença de presídios como determinante do aumento da violência. A única coisa que a gente constata é um aumento das apreensões de droga. Agora, não sabemos dizer até que ponto isso tem relação com o crime”, afirma Kahn. Para ele, casos de apreensão de droga é mais um indicador de atividade policial, do que de variação absoluta de crimes.